domingo, 6 de dezembro de 2015

O Reino de Deus e a Criança


Caminhar pela comunidade e construir relações com seus moradores é sempre uma experiência de aprendizado na missão. Não uma simples investigação ou pesquisa sociológica sobre a realidade e contexto do lugar onde nossa igreja está inserida, mas aprender assumindo um compromisso com essas pessoas, ouvindo suas histórias e nos tornamos participantes de suas angústias sofrimento e dor.

Nossa humanidade é encontrada (isto pelo fato dela estar perdida por causa de uma espiritualidade individualista) quando encontramos pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus, como nós somos, contudo em situação social bem diferente da nossa. Pessoas amadas por Deus como nós somos amados, pessoas esquecidas por nós, mas que Deus não se esqueceu delas. 


Hoje pela manhã, como de costume fui visitar a comunidade de Jardim Progresso, uma comunidade periférica cheia de desafios missionais. Quando cheguei no protão da casa de Samuel e Socorro, companheiros na missão, logo veio ao meu encontro João Vitor, aluno do Espaço Comunitário, uma criança pobre e que vive em constante situação de risco em um lugar segundo as últimas pesquisas, considerado o mais violento de Natal – RN.


Vitor chegou correndo e alegremente me abraçou perguntando: Pastor! Como o senhor está? Já melhorou? Não está mais doente? Amanhã tem aula?


Ele me perguntou sobre meu estado de saúde porquê na terça não teve vídeo aula pois estava doente. 


Também o abracei e respondi: Sim João Vitor, já estou bem melhor e amanhã haverá aula!

Vitor é um dos alunos que ao decorrer das aulas de letramento tem tido sérias dificuldade de aprendizagem e por isso precisa de atenção redobrada e acolhimento dos professores, pais e irmãos.


Mais tarde comecei a refletir à luz do Reino de Deus sobre aquela cena no portão da casa de Samuel e logo percebi uma denúncia por meio da ação do “pequeno profeta”. Rara são as vezes que nós cristãos adultos demonstramos tanta sinceridade e amor para com o outro, como aquela criança, que em meio a um abraço e acalentos, não me questionou ou julgou porque faltei na aula, mas simplesmente se preocupou com minha saúde física e bem-estar.  


Esta atitude do pequeno Vitor só aumenta minha convicção de que podemos encontrar Cristo na criança e entre os pobres. Entre eles não predomina a disputa de poder, a avareza, a ostentação, o consumismo e outros males encontrados no sistema religioso de nossos dias. Como Diz nosso amado Carlinhos, (parafraseando), “Religião é coisa para adulto, mas o Evangelho de Jesus de Nazaré é para todos, inclusive para criança”.


As palavras de Jesus no Evangelho de Mateus soam em profunda concordância com esta experiência de aprendizado.


Disse o Jesus de Nazaré:


“Chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se fazer humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus. Quem recebe uma destas crianças em meu nome está me recebendo (Mt.18.3-5). Depois trouxeram crianças a Jesus, para que lhes impusessem as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos os reprendiam. Então disse Jesus: Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, pois, o reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mt,19.13-14).


Ser, isto nos basta para entrar no Reino, a humildade é o eixo, sem humilhação e submissão a Cristo não teremos acesso ao Reino. É uma conversão a Deus e ao outro, à simplicidade, ao serviço, ao amor. Aprendamos com os pequeninos. Receber uma criança equivale e receber Jesus.


Com estas palavras, Jesus nos desafia a aprender o caminho do Reino, e como fazer para entrar nele. Fica claro no texto que não é por meio das manobras dos sistemas da religião que estão implantadas em algumas igrejas de nossos dias, nem por meio de ritos e dogmas que encontraremos a pista certa para entrar no Reino, mas pela capacidade de ser humilde, de se conformar com o simples sem ostentar, mas abraçar, amar, perdoar sem manchas de ressentimentos e liberando compaixão. Então, façamos como uma criança, é isso que Jesus nos ensina em seu Evangelho.



Marcos Aurélio dos Santos
















segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cristianismo Sem Cristo



Por Marcos Aurélio dos Santos

Porque seguir o Cristo é ser, e isto basta.  Não quero este cristianismo. Um cristianismo que deturpa a verdade do Evangelho, que negocia com os religiosos os valores do reino ensinados por Jesus de Nazaré, que se farta nas mesas da ostentação e do poder.

Não quero este cristianismo. Um cristianismo pautado em dogmas e códigos que proíbe a liberdade de pensamento para tentar calar os justiceiros famintos do reino, que oprime os fracos e indefesos, que não atenta para a causa do pobre e do estrangeiro, que blefa e se diz ser do Evangelho. Um cristianismo sem Cristo, repudio.

Não quero este cristianismo. Um cristianismo que manipula os menos esclarecidos de boa vontade, que ilude as massas em detrimento da partilha de aprendizado, que se alegra na sua hipocrisia com discursos inflamados sem práxis. Me recuso a aceitar este cristianismo.  

Não quero este cristianismo. Um cristianismo que luta por poder e fama em busca de glória para si, pois os que apregoam querem ser exaltados, almejam os melhores lugares na tribuna em detrimento da exaltação do Cristo. Estão tomados pela síndrome da espiritualidade egolátrica. Não aceitam a humilhação e a submissão mútua, seus corações estão infectados pela vaidade.

Não quero este cristianismo. Um cristianismo da anti-compaixão que não se compadece dos que sofrem, da demagogia barata e descarada que não calcula o valor imensurável da Graça, do egocentrismo que não enxerga o outro em sua espiritualidade alienada, da soberba que não leva em conta a submissão a Cristo e ao próximo.  

Não quero este cristianismo. Um cristianismo que aborrece o serviço sem levar em conta o exemplo do servo sofredor, que em sua encarnação se humilhou tomando forma de servo. A prioridade é ser servido. Sua motivação é o benefício próprio, excluindo o próximo.

Não quero este cristianismo. Um cristianismo que ostenta, que constrói os seus valores baseados nos bens que possui, na luxuria, que não reparte, que acumula em celeiros, que não vive de maneira comunitária, o cristianismo da avareza, um cristianismo sem Cristo.

Não quero este cristianismo. Um cristianismo sem misericórdia, que exclui e, que por muitas vezes comete homicídio contra o irmão, levando-o a um “óbito espiritual”, do cristianismo que não aprecia as duas partes para julgar com justiça, do que profere palavras de condenação na posição de “dono da verdade de Deus”.  

Cristo, este quero!

O Cristo da misericórdia, da compaixão, do serviço, da bondade, da justiça, da retidão, da verdade, do amor ao próximo, da submissão e obediência a Deus Pai, o Cristo da comunidade, que anda com o pobre, com o aflito, com os que sofrem, com o faminto. Quero o Cristo da partilha, que ama incondicionalmente, que se move de intima compaixão, da salvação, o Cristo do perdão.

Quero o Cristo da igualdade, que acolhe a todos sem fazer acepção de pessoas, o Cristo da humilhação, que sofreu por nós o castigo da morte na cruz, que sem proferir palavras levou as nossas culpas. Quero o Cristo dos becos, das periferias, das favelas, o Cristo que caminha com o excluído.

Quero o Cristo da profecia, que denunciou a injustiça contra os mais fracos e sem voz, que não aceitou negociar com os injustos, religiosos e opressores, que apregoou a verdade até a cruz em amor sacrificial e serviço, quero o Cristo da cruz, não o da religião. 

Quero ser morada Dele, que Ele sempre se alegre em estar em mim, e que eu possa transbordar esta alegria para os outros. Quero brilhar! Não o brilho da vaidade e da ostentação, mas das boas obras para que nosso Pai seja glorificado, quero ser morada do Cristo para que as pessoas possam ver a glória do eterno em mim. 

Que possamos se conhecidos como os do Cristo não pelos nossos feitos, mas pela capacidade de amar uns aos outros. Cristo em nós, eternamente, amém.





segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Salvação Cósmica e Integral de Deus


Por Marcos Aurélio dos Santos 

Deus amou o mundo, e por esta razão deseja salvá-lo. Esta grande salvação brota do coração de Deus enraizada em seu infinito amor por sua criação. Tudo que foi criado pela ordem de sua poderosa palavra está sobre seu domínio, do céu à terra. Ele é a razão de toda a existência.

Nada que exista está fora da criação, tudo foi feito por Ele e para Ele. Do abismo nasceu luz, do caos foi formado terra e mar. Pelo sopro de sua boca, Ele deu fôlego de vida ao ser humano, homem e mulher, criados à sua imagem e semelhança, pelo seu poder tudo que tem vida tem sua fonte de existência nele.  Os céus e a terra proclamam a sua glória.

Um fato histórico trouxe maldição a toda a criação, e por isso a mesma geme por salvação. O homem pecou e a consequência foi a queda da humanidade. Como um vírus, a maldição se alastra por toda a terra, nada escapa do efeito adâmico que afetou toda a geração até agora, como também tudo que foi criado.

Contudo Deus em sua infinita misericórdia resolve salvar o que foi afetado pela queda. Tudo que está sobre o jugo de maldição, Deus quer salvar, desde a humanidade até a relva do campo.

No plano de salvação de Deus não há prioridades, tudo é prioridade, pois tudo foi criado por Ele é para sua glória. Qualquer outra perspectiva que não se estribe em uma salvação cósmica e integral é reducionismo. O prioritário é o todo.

Duas perguntas se fazem necessárias. Se estamos incluídos e temos a certeza de nossa salvação por meio de nosso Senhor e salvador Jesus Cristo, qual o nosso papel do plano salvador de Deus? Estamos convictos de que o mais importante nisso tudo é a glória de Deus?

É preciso refletir. Se estamos nos importando demasiadamente com nossa salvação pessoal em detrimento da salvação de tudo que foi criado, não estamos em concordância com os propósitos de Deus quanto à salvação do mundo. Ele amou o mundo, e não apenas a nós.  
Se por ventura não cremos que Deus se importa com tudo que Ele criou, e apenas conosco, somos individualistas. Nossa cosmovisão está distorcida, sem base bíblica, está alienada. Não estamos enxergando o Reino de Deus em sua dimensão integral, nosso egoísmo nos impede de ver e entender a salvação em sua forma total.

Cristo Jesus, nosso salvador esteve com o Pai desde o início de tudo. Ele é o Alfa e Ômega, Nele tudo começa, Nele tudo termina. Por esta razão, na encarnação daquele que criou juntamente com o Pai tudo que existe, está também um chamado para sermos parceiros de Deus no plano redentor do todo. Portanto sinalizar o reino de Deus no mundo por meio da encarnação do Evangelho do Reino, significa dizer que Deus é Senhor de tudo e de todos e que sua salvação é cósmica e integral.

Deus tudo ama, e tudo quer salvar. Sem prediletos, sem dicotomias, esta salvação é integral, não há uma junção entre “material-espiritual”, pois em seu infinito amor, o Eterno veio por meio do seu Filho Jesus reconciliar todas as coisas para a sua glória. Amém. 




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Impressões Sobre a Prática da Missão Integral nas Igrejas

Por Marcos Aurélio dos Santos 

O tema missão integral tem circulado fortemente por diversas igrejas evangélicas do Brasil, isto em forma de palestras, Fóruns, seminários, cursos e etc. Devemos admitir que a maioria da liderança tem dificuldades em entender a nova proposta e até mesmo em alguns casos o que é missão integral. 



Há uma certa confusão na construção da teologia como também nas práticas, e, paralelamente uma resistência na mudança de paradigmas. A primeira, provavelmente sobre influencia de uma teologia fundamentalista onde esta tem uma forte ênfase em uma espiritualidade reduzida a busca de "ganhar almas".  

Não vou me delongar no tema, deixo para outro momento reflexivo. Apenas quero pontuar algumas impressões quanto a prática da Missão Integral nas igrejas, o que convenhamos, é o que torna a missão relevante. Como diz um querido companheiro de caminhada, "A MELHOR TEOLOGIA É A PRÁTICA,"

Pois bem:

Existem igrejas que buscam praticar a missão integral, contudo nunca estudaram o tema, nem tão pouco participaram de eventos que refletem sobre o tema. Estas igrejas em sua maioria estão situadas nos bairros periféricos, se identificam com as pessoas de sua comunidade e geralmente assumem um compromisso com as pessoas para servi-las nas suas diversas necessidades.   

Outras Igrejas até praticam algumas ações, mas por motivações erradas. Muita ação, contudo sem uma visão clara do que é o Reino de Deus nas suas múltiplas dimensões. Muitas dessas igrejas veem a missão integral como uma estratégia para atrair adeptos para sua denominação, com um foco direcionado ao acréscimo de pessoas na congregação. Estas, semelhantemente a Igreja de Éfeso, pratica boas obras, mas infelizmente deixou o primeiro amor que é amar ao próximo como a si mesmo. 

Também tem Igrejas que são ótimas em discursar sobre o tema, entretanto não movem um dedo para promover justiça e viver o Evangelho de Jesus. Nunca sujaram os pés nas ruas empoeiradas da comunidade onde está inserida, permanecem confinadas em seu "gueto-templo", protagonizam o triste papel de espectadoras dos fatos, preferem manter distância dos problemas do mundo. Esta corre sério risco de se ajuntar aos Hipócritas.

Encontramos outras Igrejas que discursam e praticam uma outra “missão integral” estranha ao Evangelho. Confundem ação social, movimentos evangelísticos com foco em números, departamento social em sua denominação e dentre outras ações. Nestas igrejas percebe-se uma forte ênfase no assistencialismo misturado com estratégia para atrair mais adeptos para seus grupos. Seria falta de base bíblica? ou uma motivação estranha aos propósitos de Deus na Missão?  

Tem Igrejas que buscam um equilíbrio entre evangelização e Responsabilidade social, o que é relevante. Contudo, beira o reducionismo. 

Muitas das nossas igrejas terceirizam o serviço comunitário. Até investem, mas sem nenhum envolvimento com o próximo, não sentem o cheiro das pessoas, não assumem um compromisso de conhecer e ouvir suas histórias, não querem lavar os pés do outro, não se arriscam como Jesus de Nazaré, sujar as mãos com pecadores. Preferem a terceirização pois é mais cômodo e se encaixa no modelo do sistema religioso instalado em algumas igrejas. 

Por fim, há Igrejas que se arrependeram, entraram em crise e retornaram ao Evangelho de Jesus de Nazaré. Para estas igrejas, é chegado o reino de Deus, deixaram de ser a Igreja do "BALCÃO" para ser a do "CAMINHO". Fazem teologia com o pé no chão, encontraram Cristo nos esquecidos e sem voz, aprenderam a caminhar com os marginalizados e pecadores, assim como seu mestre o fez. Aleluia!    

Amados e amadas, deixo aqui estas impressões para ajudar em nossa reflexão sobre a missão da igreja e suas implicações práticas.

Por uma igreja Relevante, serva, que busca a prática do Evangelho de Jesus de Nazaré, o servo sofredor, o Deus humilde, o Senhor de Tudo e de todos.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Redução da Maioridade Penal: Porque sou Contra?

Por José Marcos Silva 

No último dia 31 de março a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, da Câmara dos Deputados, declarou a constitucionalidade da Proposta de Emenda Constitucional 171/93, que reduz a maioridade penal de dezoito para dezesseis anos. Desde então, a população tem se posicionado de duas maneiras antagônicas e intrigantes: por um lado, mais de 80% da população é favorável à redução; por outro, centenas de entidades da sociedade têm se posicionado contrárias. 

Esse fenômeno aponta para uma contradição, pois as entidades da sociedade, como movimentos e ONGs, representam os interesses dela.
Na outra mão da via, a grande mídia, sobretudo a TV aberta, teima em dar ênfase a crimes cometidos por adolescentes, quando dados oficiais (da Unicef) mostram que menos de 1% dos crimes que atentam contra a vida, no Brasil, são cometidos por menores. Diante desse impasse, formulo algumas considerações:

1ª - Contra o argumento de que o adolescente precisa ser punido pelos crimes cometidos, é válido lembrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê penalidades já a partir dos doze anos, em várias modalidades de punição.

2ª - Para o argumento que o menor é protagonista de grande parte da criminalidade no Brasil, lembro a informação da UNICEF, trazida acima, e ainda o fato de que, entre os anos de 2006 a 2012, mais de 33 mil adolescentes foram assassinados, fazendo do Brasil o segundo país que mais matou jovens no mundo nesse período. Em pesquisa mais recente, da própria UNICEF, de 190 países pesquisados, o Brasil ocupa o 6º lugar em assassinatos de crianças e adolescentes. Isto mostra que eles são mais vítimas do que vilões.

3ª – Encarcerar o menor no sistema prisional brasileiro não resolveria o problema, pelo contrário, aumentaria a criminalidade, senão, vejamos: menos de 20% dos menores que cumprem medidas socioeducativas voltam a cometer atos infracionais, enquanto que no sistema carcerário brasileiro esse número aumenta para mais de 70%, segundo o Instituto Avante Brasil. Além disso, todos nós sabemos que as penitenciárias brasileiras, mais do que ambientes de cumprimento de pena, são “escolas do crime”, principalmente pelo teor desumanizante de sua estrutura física e psicológica. Com maior probabilidade, um menor sairá desse ambiente “doutor” em delinquência,

4ª – Índice de criminalidade se reduz com condições humanas de vida. Quem convive nas favelas desse país sabe bem que nossas crianças e adolescentes são vítimas de um sistema que não provê os direitos mínimos necessários para uma vida com dignidade. Reduzir a criminalidade se consegue quando se provê escola de qualidade, moradia decente, trabalho digno para o trabalhador, e os demais direitos constitucionais. A solução que não passar por esse caminho, será como “tapar o sol com uma peneira”.

5ª – A grande maioria dos países mantém a maioridade penal em dezoito anos, além do que, países que reduziram a maioridade penal tendem a voltar atrás, como é o caso da Alemanha, Japão e França. Antes de punir o adolescente, o Estado deve fazer a sua parte. Aposto caro que, se isso acontecesse, índices de criminalidade seriam reduzidos.

6ª – Temos uma constituição que se posiciona quanto ao tema (Art. 228) e um ECA moderno, que estão alinhados com padrões internacionais e com a recomendação da ONU quanto ao cuidado com crianças e adolescentes. O problema da criminalidade não está na lei, mas sim, no descumprimento desta.

7ª – Dizer que a lei brasileira acoberta o menor infrator e que, por isso, o crime organizado se utiliza do menor, bem como usar esse argumento para se alterar a lei, é apenas mudar o foco do problema, pois se o criminoso se utiliza de adolescentes de dezesseis anos como escudo para seus crimes, com a diminuição da maioridade penal, utilizar-se-á de adolescentes de quinze, catorze... Ao seguirmos essa lógica, teremos que prender nossas crianças vulneráveis.

Concluo com um texto breve do livro de Isaías (10.1, 2) que diz: 

“Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades; para privarem da justiça os necessitados, e arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos”.


Por estar convicto de que punir sem dar condições para que o transgressor faça novas escolhas é também um ato criminoso, sou contra a redução da maioridade penal.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Vivendo em Guetos Cristãos

O plano de Deus era que nós fôssemos sal diluído no mundo e luz brilhando em meio às trevas. Mas, por vezes, parece que muitos de nós fizemos opção por ser luz no clarão do meio dia e sal em meio a tanto sal amontoado.
Nos orgulhamos de não ter deixado o “mundo” nos acometer (e ainda chamam isso de santidade), mas não percebemos que também não invadimos o mundo para que vissem nossa luz e cressem n’Ele.
O evangelho que vivemos parece mais um “gueto cristão”. Nós somos os autores e os consumidores de todo tipo de cultura que produzimos. Nós escrevemos para evangélicos e lemos livros evangélicos comprados em livrarias evangélicas. Nós fazemos músicas evangélicas, escutamos músicas evangélicas e cantamos canções evangélicas.
Ouvi uma moça da igreja uma vez dizer – orgulhosa – que nunca na vida tinha ouvido “música secular”. Eu respondi dizendo que quem não ouve o tipo de música que ela chama de secular, não se torna uma pessoa mais santa do que quem as ouve. Na verdade, quem só ouve musica cristã tem menos cultura do que as demais pessoas que ouvem canções que não falam diretamente de Deus, mas que estão cheias da graça comum vinda d’Ele.
Fato é que a forma com que muitos de nós escolhemos viver o cristianismo, nos transformou em um “gueto cristão”.
A igreja, há algumas décadas, foi para a mídia de rádio fazer programa para evangélicos, para a televisão fazer programas para evangélicos, para a internet fazer sites e blogs para evangélicos, e cada vez menos nossa luz brilha no mundo, e cada vez mais nos tornamos um “reduto cristão”.
Empreendedores fizeram escolas evangélicas, hospitais evangélicos, pensando no público evangélico. Cineastas (americanos) evangélicos produzem filmes para evangélicos.
Poderia citar tantos outros exemplos, para você perceber que somos autores e consumidores de toda expressão de arte ou forma de cultura que produzimos e tudo isso só fez aumentar os muros que nos tornam separados do mundo e assim acabamos sendo luz em meio a luz e sal empilhado.
Muitas pessoas são cercadas na sua grande maioria apenas por amigos evangélicos, as últimas comemorações (aniversários, casamentos…) que tivemos oportunidade de participar foram de evangélicos, e as últimas pessoas que vieram em nossa casa almoçar conosco também foram evangélicas.
Nada disso é ruim, pelo contrário, é ótimo! Mas, desta forma, como verão nossa luz?
Há alguns meses atrás, fui almoçar com um amigo pastor em sua cidade no interior. Como não conhecia a região, falei para ele escolher o restaurante, ao que ele respondeu: “Vamos no restaurante de um pastor amigo meu, eu só almoço por lá”.
Fiquei pensando como seriam fortes o testemunho e a influência desse pastor se ele só almoçasse no mesmo restaurante de um não evangélico.
O projeto de Deus é nos tirar do mundo, nos transformar – em sal e em luz- e depois nos devolver pra ele, transformados, a fim de que creiam no poder transformador do evangelho de Cristo. Porém, nós construímos um gueto e não voltamos para o mundo de onde fomos resgatados.

Alan Corrêa, 34 anos, paulista, pós-graduado em Religião e Cultura. Escreveu o livro “Dissidentes da Igreja”. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Evangelho Segundo o Mendigo Lázaro



Por Alan Correia 

Em Lucas 16:19 nós temos a famosa parábola do Rico e do Mendigo chamado Lázaro.


Lázaro é o extremo oposto do rico da história contada por Jesus. Enquanto o homem rico é coberto de púrpuras, o mendigo Lázaro é coberto de úlceras (feridas abertas).


No final do episódio dessa parábola o rico vai para um lugar de tormento, porém o mendigo vai para o seio de Abraão.


Isso nos faz pensar que o mendigo era salvo, e mesmo salvo permaneceu mendigo. Lembrando que mendigo aqui não é sinônimo de pobreza, antes de miséria absoluta.


Infelizmente essa história se repete em nossa realidade, existem muitas pessoas que receberam o evangelho e permaneceram mendigando “o pão que só foi nosso cada dia”.


Que tipo de evangelho foi pregado para os “Lázaros” de nossos dias?

Qual o perfil desse evangelista ou dessa igreja que levou o evangelho para Lázaro?


A igreja que pregou o evangelho para Lázaro é uma igreja que enxerga só a alma do homem.

Assim como tem vampiro que só quer o sangue, existem igrejas que só querem a alma e nada mais.


A igreja em sua missão peca quando só enxerga a alma, peca mais ainda quando só enxerga o corpo, mas é louvada quando enxerga o homem como um todo “.

Jesus nunca enxergou almas, ele sempre enxergava vidas, era por isso que muitas vezes quando ele via alguém sofrendo no corpo, diz os evangelhos que Jesus sentia íntima compaixão, dói as suas entranhas pelo sofrimento do próximo.


Muitas de nossas missões tem sido alcançar apenas número de almas salvas e a igreja não se envolve nas questões sociais e o pior é que quando se envolve a motivação é a salvação da alma apenas.


Hoje em dia é assim, a igreja monta uma sala de aula na comunidade para alfabetização, no final de um ano, 4 de 10 alunos recebem a Jesus, e então consideram ter sua missão cumprida mesmo todos os 10 não tendo aprendido a se quer escrever seu nome, essa é uma igreja que enxerga almas, ela faz missões, mas a faz de forma incompleta.


Tem Igreja que entrega cesta básica só se o necessitado assistir ao culto antes, isso não é estratégia de evangelismo isso é proselitismo.


A visão de ajudar o próximo querendo em troca a salvação da alma se parece mais com o islamismo do que com o cristianismo.


Nós não temos que distribuir cestas básicas pra ganhar almas, nós temos que distribuir cesta básicas porque as pessoas estão passando fome e nós amamos o nosso semelhante e queremos ver o reino de Deus entre eles.


A ação social na igreja não deve ser uma cooperação para a eficácia do evangelismo na comunidade, mas deve ser um ato de amor com os menos favorecidos seja ele qual for.


Para ganhar almas não precisamos contar com a ajuda de ação social, já temos a ajuda do Espírito Santo (que convence o homem do pecado e do juízo).


Lázaro recebeu um evangelho que lhe deu uma nova vida no céu mas que não lhe deu uma nova vida abundante aqui na Terra.


Ele permaneceu mendigo, o missionário que pregou o evangelho para Lázaro era um missionário portador de uma pregação limitada, esse missionário pregou aos seus ouvidos mas não pregou ao seus olhos.


Que possamos abortar esse evangelho que tem como alvo só a alma, e pensar no homem como um todo.


Aqueles que não querem Jesus também merecem nossa compaixão e nossa ação social, lembremos sempre que Jesus distribuiu pão a uma multidão dos quais muitos disseram mais tarde, crucifica!